A explosão comercial do Punk

Como a apropriação pelo mercado descaracterizou a essência política do movimento punk

Alessandra Moura

O final da década de 1980 marca a era de ouro da produção de fanzines punks em Londrina. Mas o auge destas publicações, assim como o cerne contestador do movimento que as impulsionou, foi efêmero.

As jornalistas Carolina Avansini e Cynthia Ito, em sua monografia “Fanzines Punks: uma análise do panorama em Londrina”, datam o declínio do movimento punk na cidade a partir dos anos 90, quando o fanzine Utopia parou de circular. Os jovens da época áurea do punk londrinense amadureceram.

Segundo o professor de História da Universidade Estadual de Londrina, Rogério Iwano, o punk cabe em “u m período da sua vida em que você se revolta mais, se sente mais irado com o mundo, não necessariamente na juventude. “Depois, você vai ficando mais ‘bundão'; ou então você tenta outras formas talvez mais radicais de participação”, analisa.

Infelizmente, este quadro se concretizou em Londrina: a cena fanzineira mostrou que o punk estava sim ligado à juventude. Os fanzines punks, em sua maioria, deixaram de existir. Culpa não só do declínio do movimento em Londrina, mas também pela efemeridade característica da publicação, que muitas vezes não ultrapassava a quinta edição.

Punkomércio

“Eu não vejo”, responderam Iwano e Eduardo Cientista, pioneiros do movimento punk e fanzineiros de Londrina, ao serem perguntados como vêem o punk e o anarquismo hoje na cidade. Mas, pense bem: não foi ontem mesmo que você viu uma calça rasgada, um tênis sujo, um cabelo moicano, um cinto de tachinhas ou qualquer outro resquício do movimento punk?

Você se chocou?

A estética punk, assim como a de outros movimentos contraculturais, foi apropriada pelo mercado. O movimento foi fragmentado, enquanto seu viés político foi deixado de lado, sua moda e música, por exemplo, foram capturadas. Hoje, encontra-se em lojas especializadas e salões de beleza um punhado de artigos ligados ao comportamento punk. Os piercings, antes feitos com alfinetes, hoje são anti-septicamente aplicados no umbigo de Carlas Perez.

Para Rogério Iwano, essa comercialização da atitude punk não é totalmente negativa. “ Mesmo que compre na butique, a pessoa vai rasgar; tomara que rasgue, faça uma coisa diferente, para não se padronizar de acordo com o que a butique está se expressando”. No entanto, esse consumo não é sempre genuíno. Encontrar uma frase legal numa camiseta bonita não é expressar necessariamente um sentimento. Perde-se aí boa parte do ‘do it yourself' do punk, que talvez hoje possa ser mais facilmente encontrado nos arquivos livres de Copyleft.

E pro futuro? Para Cientista, o punk genuíno não cabe mais como movimento contestatório. “Ainda continuam algumas fagulhas. É claro que elas podem causar alguns incêndios. Mas hoje não choca mais como antes, não tem mais o fator revolucionário”, explica ele. Iwano acredita que o punk ainda é uma expressão de comportamento, que pode ser absorvida de vez ou se radicalizar. Ele explica: “a gente vive um processo de ‘careteamento' absurdo, então é provável que o punk acabe se radicalizando um pouco mais. Não como movimento punk, mas como comportamento contestatório, por que a formalidade está ganhando terreno grotescamente”.

Comportamento contestatório? Pense na ira.

Reprodução


" Punk Rock means freedom": uma frase legal
em um tênis bonito


Agyness Deyn, modelo das mais badaladas do momento, compra a jaqueta jeans e a atitude Punk

 
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